Angelino Siqueira, um mestre artesão do Espírito Santo, representa a última chama de uma tradição musical vital. Ele é o único a fabricar concertinas no estado, mantendo viva uma herança cultural centenária. Sua dedicação conecta gerações e resgata memórias preciosas para muitas famílias.
Este ofício raro sustenta um pedaço da identidade capixaba. A concertina, mais que um instrumento, é um símbolo da história dos imigrantes na região. Angelino, com suas mãos habilidosas, impede que esse som se perca no tempo.
A Herança Europeia e o Som da Concertina no ES
O Espírito Santo recebeu milhares de imigrantes europeus, principalmente italianos e alemães, a partir do século XIX. Eles vieram buscar novas oportunidades, mas trouxeram sua cultura na bagagem. A música era parte essencial dessa vida nova.
A concertina, ou gaita-ponto, chegou com esses pioneiros. Ela animava festas, celebrava colheitas e embalava a rotina no campo. O instrumento se tornou a trilha sonora de comunidades rurais, marcando a identidade de muitas cidades do interior.
Esses imigrantes desbravaram terras, fundaram vilas e ergueram uma nova economia. A concertina estava sempre presente, contando histórias. Ela se tornou um elo forte com a terra natal e um símbolo de resiliência e festa. A música ajudava a manter as tradições vivas.
Com o tempo, a tradição de fabricar esses instrumentos foi diminuindo. Instrumentos industrializados ganharam espaço, e os artesãos diminuíram. Hoje, Angelino é um dos poucos que ainda domina essa arte complexa. Ele representa a memória viva de um tempo.
Angelino e Sua Arte: O Último Guardião de um Som
Angelino Siqueira não é apenas um fabricante; ele é um guardião. Aprendeu o ofício ainda jovem, observando os mestres antigos. Sua paixão pela música e pela cultura o fez persistir. Ele montou sua oficina e nunca mais parou.
Seu trabalho é minucioso, demanda paciência e precisão. Cada concertina leva semanas para ficar pronta. Ele usa madeiras específicas, foles de couro e centenas de peças pequenas. É uma orquestra de detalhes em cada instrumento.
A raridade do seu trabalho atrai músicos e colecionadores de todo o Brasil. Eles buscam não apenas um instrumento, mas uma peça de história. Cada concertina de Angelino carrega a alma do artesão e a memória de um povo.
O Processo Artesanal da Concertina: Uma Dança de Precisão
Fazer uma concertina é um desafio. O processo começa com a escolha da madeira, muitas vezes jacarandá ou marfim. Essas madeiras garantem a sonoridade e a durabilidade do instrumento. Angelino seleciona cada peça com cuidado.
Depois, ele molda as caixas acústicas, que precisam ser perfeitas para ressoar bem. O fole, feito de couro e papelão, é montado para garantir o movimento do ar. Ele é o coração do instrumento, responsável por dar vida ao som.
A parte mais delicada são as palhetas metálicas. Angelino as ajusta uma a uma, testando o tom e a afinação. São dezenas de palhetas, cada uma produzindo uma nota diferente. A sintonia fina requer anos de experiência.
Por fim, ele monta os botões e as alças. Cada etapa é manual, sem atalhos. Uma concertina pronta reflete centenas de horas de trabalho. É um processo que une técnica, arte e muita dedicação.
Impacto Cultural e Econômico: Além da Música, um Legado Vivo
O trabalho de Angelino vai além da fabricação de instrumentos. Ele é um pilar da cultura capixaba, especialmente nas áreas rurais. Sem ele, uma parte importante da identidade local correria o risco de desaparecer. Sua arte fortalece a conexão com as raízes.
A concertina é presente em festas tradicionais, danças folclóricas e reuniões familiares. Ela mantém vivas as canções dos avós e a memória dos imigrantes. É um elo tangível entre o passado e o presente. Sua música emociona e une as pessoas.


