A chegada de Donald Trump à Casa Branca em 2017 e a subsequente ascensão de Jair Bolsonaro à presidência do Brasil em 2019 inauguraram um período de expectativa e incerteza nas relações bilaterais, especialmente no campo econômico. A política de “America First” de Trump, focada em protecionismo e renegociação de acordos comerciais, gerou apreensão global, mas também vislumbres de alinhamento ideológico com o governo brasileiro. Este artigo explora os principais impactos econômicos e comerciais dessa dinâmica.
Comércio Bilateral: Retórica vs. Realidade
Durante a gestão Trump, a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, embora significativa, não experimentou uma expansão drástica ou uma profunda reconfiguração. Os EUA mantiveram-se como um dos principais parceiros comerciais do Brasil, atrás da China e da União Europeia. Em 2019, o comércio bilateral de bens e serviços totalizou cerca de US$ 104 bilhões, com o Brasil registrando superávit em 2017 e 2018, e déficit em 2019 e 2020. As exportações brasileiras para os EUA foram dominadas por produtos manufaturados e semimanufaturados, enquanto as importações focaram em bens de capital e tecnologia.
Um ponto de atrito foram as tarifas sobre aço e alumínio impostas pelos EUA em 2018, sob a seção 232 da lei de comércio americana, que alegava riscos à segurança nacional. O Brasil, um grande exportador desses produtos, foi inicialmente atingido, mas conseguiu negociar cotas de exportação, evitando um impacto mais severo. Este episódio demonstrou a complexidade de navegar pela política comercial de Trump, mesmo para nações com alinhamento político.
Investimento Estrangeiro Direto e Acordos Pontuais
Os Estados Unidos continuaram sendo o maior investidor estrangeiro direto (IED) no Brasil. Dados do Banco Central indicam que o estoque de IED americano no Brasil permaneceu robusto, superando US$ 100 bilhões. Contudo, não houve um grande acordo de livre comércio entre os dois países, apesar da retórica favorável. Em vez disso, a cooperação se deu em iniciativas mais específicas e de menor alcance.
Um marco foi o Acordo de Facilitação do Comércio e Boas Práticas Regulatórias, assinado em outubro de 2020. Este pacto, dividido em três anexos – facilitação do comércio, boas práticas regulatórias e anticorrupção –, visava modernizar e desburocratizar as relações comerciais, mas sem alterar fundamentalmente as tarifas ou barreiras não tarifárias de grande escala. Foi visto como um passo incremental, mas que sinalizava a intenção de aprofundar laços em áreas específicas.
Agronegócio e o Impacto da Guerra Comercial EUA-China
O setor do agronegócio brasileiro sentiu efeitos indiretos da política de Trump. A guerra comercial entre EUA e China, com a imposição de tarifas retaliatórias mútuas, beneficiou o Brasil. A China, buscando alternativas para produtos agrícolas americanos, aumentou significativamente suas compras de soja e carne brasileiras. Isso resultou em um recorde de exportações agrícolas do Brasil para a China, compensando potenciais perdas em outros mercados e impulsionando o saldo comercial do setor.
Por outro lado, o Brasil não conseguiu avançar significativamente na abertura de mercados para seus produtos agrícolas nos EUA, que mantêm fortes subsídios e barreiras não tarifárias para proteger seus produtores. A promessa de abertura de mercado para carne bovina brasileira, por exemplo, avançou lentamente.
Considerações Finais
A relação Brasil-EUA sob Donald Trump foi marcada por uma dinâmica peculiar. A forte afinidade ideológica entre os presidentes Bolsonaro e Trump gerou expectativas de uma aproximação econômica sem precedentes. No entanto, a política pragmática de “America First” de Trump limitou a profundidade dessa aproximação em termos de grandes acordos comerciais ou eliminação de barreiras significativas. O Brasil navegou esse período com um misto de desafios (tarifas) e oportunidades (agronegócio via guerra comercial EUA-China).
Em suma, enquanto a retórica de um alinhamento estratégico foi proeminente, os ganhos econômicos concretos para o Brasil foram mais pontuais e, em alguns casos, indiretos, como no agronegócio. A relação manteve sua importância, mas sem uma guinada estrutural que muitos esperavam, ressaltando a primazia dos interesses nacionais na formulação da política externa de ambos os países.