ESG

Sambaquis de SC: Tesouros milenares sob ameaça e o potencial do turismo arqueológico

Sambaquis no litoral sul de Santa Catarina, com mais de 7 mil anos, enfrentam descaso e degradação. O turismo arqueológico surge como alternativa para valorização e preservação, atraindo visitantes e gerando renda com foco na sustentabilidade.

Por Mariana Campos |

6 min de leitura· Fonte: oeco.org.br

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Sambaquis de SC: Tesouros milenares sob ameaça e o potencial do turismo arqueológico - ESG | Estrato

Os sambaquis, monumentos pré-históricos formados pela acumulação de moluscos e vestígios humanos ao longo de milênios, guardam histórias fascinantes do passado brasileiro. No litoral sul de Santa Catarina, esses sítios arqueológicos, alguns com mais de sete mil anos – superando em antiguidade as pirâmides do Egito –, enfrentam um grave cenário de abandono e degradação. A falta de políticas eficazes de preservação e a escassez de investimento em sua conservação e divulgação ameaçam a integridade desses patrimônios inestimáveis, que poderiam se tornar vetores de desenvolvimento econômico e cultural por meio do turismo arqueológico.

Sambaquis: Um Legado Pré-Histórico Ameaçado

Os sambaquis são pilhas de conchas, ossos de animais, restos de fogueiras e, em muitos casos, sepultamentos humanos, deixados por populações que habitaram o litoral brasileiro há milhares de anos. Eles representam um registro ímpar de modos de vida, dietas, práticas sociais e ambientais de nossos ancestrais. A região sul de Santa Catarina é particularmente rica em sítios desse tipo, com alguns exemplares datando de cerca de 7.500 anos atrás, conforme estudos realizados pelo Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da Universidade de São Paulo (USP) e outras instituições de pesquisa.

A importância desses sítios transcende o valor histórico e científico. Eles são testemunhos da relação do homem com o ambiente costeiro e da ocupação humana no território que hoje conhecemos como Brasil. No entanto, a falta de reconhecimento e de medidas concretas de proteção tem levado à sua deterioração. A reportagem original do portal Oeco aponta que muitos sambaquis estão sendo destruídos pela ação humana, seja pela retirada de conchas para uso na construção civil, pela urbanização desordenada nas áreas costeiras ou mesmo pelo vandalismo.

Um dos pontos críticos destacados é a dificuldade em implementar ações de preservação efetivas. A legislação brasileira, embora preveja a proteção de sítios arqueológicos, muitas vezes esbarra na falta de fiscalização, de recursos e de articulação entre os diferentes níveis de governo e a sociedade civil. A ausência de um plano de manejo claro e de investimentos contínuos para a pesquisa, conservação e sinalização desses locais agrava o quadro, deixando um patrimônio de valor incalculável à mercê do descaso.

O Impacto da Degradação no Patrimônio Cultural

A destruição de um sambaqui significa a perda irreversível de informações sobre o passado. Cada camada de conchas, cada artefato, cada osso humano preservado é uma peça de um quebra-cabeça que nos ajuda a entender quem fomos e como evoluímos. A erosão costeira, intensificada pelas mudanças climáticas, também representa uma ameaça crescente, expondo e desmantelando sítios que antes estavam protegidos pela vegetação e pela própria dinâmica natural da paisagem.

Dados preliminares de projetos de pesquisa indicam que centenas de sambaquis já foram total ou parcialmente destruídos no litoral catarinense. A ausência de um inventário completo e atualizado dificulta a quantificação exata do problema, mas o cenário geral é de grande preocupação. A perda desses sítios não afeta apenas a comunidade científica, mas toda a sociedade, que é privada de conhecer e se conectar com suas raízes mais profundas.

Turismo Arqueológico: Uma Alternativa para Valorização e Preservação

Diante desse cenário preocupante, o turismo arqueológico emerge como uma estratégia promissora para a valorização e, consequentemente, a preservação dos sambaquis. A ideia central é transformar esses sítios em atrativos turísticos, gerando renda e conscientização, ao mesmo tempo em que se promove a sua conservação.

A iniciativa, ainda incipiente em muitas regiões, envolve a criação de roteiros turísticos que incluam visitas guiadas a sambaquis selecionados e bem preservados, acompanhadas de atividades educativas e culturais. Museus locais, centros de visitantes e centros de interpretação arqueológica podem desempenhar um papel fundamental na contextualização histórica e científica desses monumentos, oferecendo aos turistas uma experiência enriquecedora e responsável.

Um exemplo inspirador pode ser observado em iniciativas em outros países, onde sítios arqueológicos são integrados a estratégias de turismo sustentável, gerando benefícios econômicos para as comunidades locais e fomentando um senso de orgulho e pertencimento em relação ao patrimônio cultural.

Modelos de Sucesso e Potencial de Crescimento

Para que o turismo arqueológico nos sambaquis de Santa Catarina se consolide, é necessário um esforço conjunto entre órgãos governamentais (como Iphan, secretarias de cultura e turismo), instituições de pesquisa, iniciativa privada e comunidades locais. A criação de infraestrutura básica, como trilhas bem sinalizadas, passarelas para acesso e centros de apoio, é um passo inicial importante.

Além disso, é fundamental investir na capacitação de guias locais, que possam transmitir de forma didática e engajadora a história e a importância dos sambaquis. A parceria com operadoras de turismo, a divulgação em plataformas especializadas e a criação de materiais informativos de qualidade são essenciais para atrair visitantes. A experiência de cidades como Paraty (RJ), que possui um rico patrimônio histórico e arqueológico, pode servir de modelo.

O impacto econômico potencial é significativo. O turismo arqueológico atrai um público diferenciado, interessado em história, cultura e experiências autênticas. Esses visitantes tendem a permanecer mais tempo nas regiões, gastam mais em hospedagem, alimentação e artesanato local, contribuindo para a diversificação da economia regional e para a geração de empregos, especialmente em áreas litorâneas que muitas vezes dependem exclusivamente do turismo de sol e praia.

Desafios e Oportunidades para a Sustentabilidade

A implementação do turismo arqueológico não está isenta de desafios. A principal preocupação é garantir que o fluxo turístico não se torne uma nova ameaça à preservação dos sítios. Para isso, é crucial adotar práticas de turismo de baixo impacto, limitando o número de visitantes por dia em cada local, estabelecendo regras claras de conduta e investindo em tecnologias de monitoramento e conservação.

A integração dos sambaquis em uma estratégia de turismo mais ampla, que valorize também a biodiversidade local, a cultura açoriana e outras manifestações culturais da região, pode criar um produto turístico mais robusto e atrativo. A sustentabilidade deve ser o pilar central, assegurando que os benefícios econômicos e sociais da atividade sejam revertidos para a conservação do patrimônio e para o bem-estar das comunidades locais.

O potencial de Santa Catarina para se tornar um polo de turismo arqueológico é imenso. Com um planejamento adequado e o engajamento de todos os setores, os sambaquis podem deixar de ser apenas vestígios silenciosos do passado para se tornarem protagonistas de um futuro sustentável, onde a história e a natureza caminham juntas. A valorização desses monumentos milenares não é apenas uma questão de preservação cultural, mas uma oportunidade de desenvolvimento econômico e de fortalecimento da identidade brasileira.

Considerando a riqueza histórica e a fragilidade desses monumentos, qual o papel das empresas e dos investidores na promoção de um turismo arqueológico responsável e sustentável no litoral sul de Santa Catarina?

Perguntas frequentes

O que são sambaquis e qual sua importância?

Sambaquis são montes formados pela deposição de conchas, ossos e outros vestígios de populações pré-históricas ao longo de milhares de anos. São importantes por registrarem modos de vida, dietas e práticas sociais de nossos ancestrais, além de serem testemunhos da ocupação humana no litoral brasileiro.

Quais as principais ameaças aos sambaquis em Santa Catarina?

As principais ameaças incluem a destruição pela ação humana (retirada de conchas, urbanização, vandalismo), a erosão costeira agravada pelas mudanças climáticas e a falta de políticas eficazes de preservação, fiscalização e investimento.

Como o turismo arqueológico pode ajudar na preservação dos sambaquis?

O turismo arqueológico pode valorizar os sambaquis como atrativos culturais e históricos, gerando conscientização sobre sua importância e renda para as comunidades locais. Isso incentiva a conservação e a proteção dos sítios, desde que praticado de forma responsável e sustentável.

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