ESG

Câmara aprova rastreabilidade do ouro: um passo contra o garimpo ilegal?

Projeto aprovado na Câmara institui sistema de rastreabilidade para o ouro, visando combater o garimpo ilegal. A medida enfrenta debates sobre sua eficácia e segue para o Senado, onde ajustes são esperados.

Por Oswaldo Braga de Souza
ESG··6 min de leitura
CompartilharWhatsAppTwitter/XLinkedIn
Câmara aprova rastreabilidade do ouro: um passo contra o garimpo ilegal? - ESG | Estrato

A Câmara dos Deputados aprovou na última semana o Projeto de Lei 4372/2021, que estabelece um sistema nacional de rastreabilidade do ouro. A proposta, que agora segue para análise do Senado Federal, tem como principal objetivo combater o garimpo ilegal e a lavagem de dinheiro no setor mineral, uma demanda crescente de setores da sociedade civil, ambientalistas e investidores preocupados com critérios ESG (Ambiental, Social e Governança).

Rastreabilidade do Ouro: Um Avanço na Luta Contra o Garimpo Ilegal

O garimpo ilegal tem sido um dos principais vetores de desmatamento na Amazônia, além de estar frequentemente associado a violações de direitos humanos, conflitos com comunidades indígenas e contaminação por mercúrio. A falta de um controle efetivo sobre a origem do ouro negociado no Brasil permitia que o metal extraído de forma ilícita fosse facilmente inserido no mercado legal, dificultando a fiscalização e a responsabilização dos envolvidos. O novo sistema busca sanar essa lacuna, criando um registro unificado e transparente que permita acompanhar o ouro desde a extração até a sua comercialização final.

Segundo dados do Instituto Escolhas, em 2019, 40% do ouro comercializado em Belo Horizonte, principal polo de negociação do metal no país, pode ter vindo de áreas de garimpo ilegal na Amazônia. Essa estatística evidencia a dimensão do problema e a urgência de medidas como a rastreabilidade. O projeto prevê que todas as etapas da cadeia produtiva do ouro, incluindo a extração, o beneficiamento, o transporte e a comercialização, sejam documentadas e registradas em um sistema digital. A intenção é que cada etapa seja validada por órgãos competentes, garantindo a autenticidade e a legalidade do produto.

O Papel Crucial do Cadastro Centralizado

Um dos pilares do projeto é a criação de um cadastro centralizado para todas as empresas e cooperativas que atuam na cadeia do ouro. Esse cadastro, a ser gerido pelo Ministério de Minas e Energia (MME), exigirá a apresentação de documentos que comprovem a origem legal do metal, como a Guia de Recolhimento da União (GRU) e a autorização de lavra garimpeira. A ideia é que o sistema funcione de forma integrada com outras bases de dados governamentais, como as da Receita Federal e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), para dificultar fraudes.

A Agência Nacional de Mineração (ANM) teria um papel fundamental na fiscalização e na validação das informações. A proposta também prevê sanções rigorosas para quem descumprir as normas, incluindo multas e a suspensão ou cassação de licenças de operação. A expectativa é que essa maior transparência e controle inibam a atividade ilegal e protejam as empresas que operam dentro da legalidade.

Desafios e Controvérsias na Implementação

Apesar do avanço em termos de intenção, o projeto de lei não está isento de críticas e desafios. Um dos principais pontos de debate reside na forma como a rastreabilidade será implementada na prática e na capacidade dos órgãos fiscalizadores de lidar com o volume de informações e a complexidade da cadeia. Setores da sociedade civil, como o Observatório da Mineração e o Instituto Socioambiental (ISA), apontam que o texto ainda pode ser aprimorado para garantir que a rastreabilidade seja efetiva e não apenas um paliativo. Há preocupações de que o sistema possa ser burlado ou que a fiscalização seja insuficiente para coibir as irregularidades.

O Instituto Escolhas, em nota técnica, ressaltou que a rastreabilidade é um passo importante, mas não é suficiente por si só. A organização defende que a legislação precisa ser acompanhada de um fortalecimento da fiscalização em campo, com investimento em tecnologia e pessoal para atuação do Ibama, da ANM e da Polícia Federal. Além disso, é fundamental que o projeto aborde de forma mais robusta a questão da destinação das áreas degradadas pelo garimpo ilegal e a reparação dos danos ambientais e sociais causados.

Outro ponto de discórdia é a possibilidade de que o texto aprovado na Câmara facilite a regularização de garimpos ilegais que já estejam em andamento, em vez de focar apenas na prevenção e na punição. O ISA, por exemplo, manifestou preocupação com a redação que permite a regularização de áreas de garimpo em terras indígenas, desde que haja consulta prévia às comunidades, o que consideram um avanço perigoso e que pode intensificar conflitos.

O Impacto para Empresas e Investidores ESG

Para o setor mineral que opera legalmente, a rastreabilidade do ouro pode representar uma oportunidade de ouro, literalmente. Empresas que já cumprem com as exigências ambientais, sociais e de governança terão um diferencial competitivo, pois poderão comprovar a origem lícita de seus produtos, agregando valor e confiança aos seus negócios. Isso pode atrair investimentos de fundos e instituições financeiras que priorizam critérios ESG em suas alocações, buscando mitigar riscos associados à ilegalidade e à má reputação.

A demanda por ouro com origem comprovadamente legal e sustentável tende a crescer no mercado internacional. Investidores e consumidores estão cada vez mais atentos às cadeias produtivas e buscam garantir que seus investimentos e compras não estejam financiando atividades ilícitas ou prejudiciais ao meio ambiente e às populações locais. Um sistema de rastreabilidade robusto pode posicionar o Brasil de forma mais favorável nesse cenário global, atraindo capital e impulsionando o desenvolvimento de um setor mineral mais responsável.

Por outro lado, empresas que dependem de ouro de origem duvidosa ou que operam à margem da lei podem enfrentar dificuldades crescentes. A maior transparência e o rigor na fiscalização tenderão a aumentar os custos operacionais e a expor atividades irregulares, levando à desvalorização de seus ativos e à perda de acesso a mercados. O risco reputacional e financeiro se torna significativamente maior.

O Caminho no Senado e as Expectativas Futuras

O PL 4372/2021 agora segue para o Senado, onde espera-se que o debate seja aprofundado e que possíveis ajustes sejam feitos. A sociedade civil e as organizações ambientalistas e indigenistas têm pressionado por emendas que reforcem a fiscalização, garantam a consulta efetiva às comunidades afetadas e restrinjam a possibilidade de regularização de garimpos ilegais, especialmente em áreas sensíveis como terras indígenas e unidades de conservação. O setor mineral, por sua vez, também apresentará suas demandas e preocupações, buscando um equilíbrio entre o controle e a viabilidade econômica das operações.

A aprovação de um sistema de rastreabilidade eficaz é um passo fundamental, mas a sua implementação exigirá vontade política, investimento em infraestrutura e capacidade técnica dos órgãos responsáveis. Será crucial que o Senado dialogue com todos os setores envolvidos para construir uma legislação que seja verdadeiramente efetiva no combate ao garimpo ilegal, ao mesmo tempo em que fomenta um setor mineral mais sustentável e responsável. A forma como o texto será finalizado e, principalmente, como será colocado em prática, definirá o real impacto dessa iniciativa para o futuro da mineração no Brasil e para a proteção de seus biomas e populações.

Será que a rastreabilidade do ouro será suficiente para frear a expansão do garimpo ilegal e garantir um futuro mais sustentável para a Amazônia?

Perguntas frequentes

Qual o principal objetivo do projeto de lei aprovado pela Câmara?

O principal objetivo é criar um sistema nacional de rastreabilidade do ouro para combater o garimpo ilegal e a lavagem de dinheiro no setor mineral.

Quais são as principais críticas ao projeto?

As críticas envolvem a preocupação com a eficácia da fiscalização, o risco de o sistema ser burlado, a possibilidade de regularização de garimpos ilegais e a necessidade de fortalecer a atuação dos órgãos fiscalizadores em campo.

Como a rastreabilidade do ouro pode impactar empresas e investidores?

Para empresas legais, pode ser um diferencial competitivo e atrair investimentos ESG. Para empresas irregulares, pode aumentar riscos e dificultar o acesso a mercados.

Gostou? Compartilhe:

CompartilharWhatsAppTwitter/XLinkedIn

Oswaldo Braga de Souza

Cobertura de ESG

estrato.com.br

← Mais em ESG